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MAR: Ousadia e Medo


"(...) é habitual afirmar-se que os primeiros navegadores portugueses tiveram de vencer o medo do mar para de aventurarem no mar oceano desconhecido e assim dar início às ousadas viagens oceânicas que os levaram a percorrer os quatro cantos do globo. Consideramos que não é assim tão simples, pois os mareantes lusos (e todos os outros europeus) não venceram o medo, antes fizeram algo bem mais ousado: aprenderam a viver com ele. (...) Esse medo - que podemos considerar como novo, pois resulta do contacto direto e brutal com a realidade, ao contrário do medo dos séculos anteriores, que tinha origem sobretudo no ouvir dizer (...)"

Neste excerto é bem visível a dualidade entre a ousadia e o medo/terror sentida pelos navegadores portugueses, aquando de iniciar as descobertas marítimas. Por um lado, havia a necessidade e a força audaz de se aventurarem ao desconhecido, no sentido de proporcionar melhores condições de vida ao povo português, de procurar novas culturas, pontos de comércio, etc.; mas, por outro, despoltara-se o sentimento de medo por tudo aquilo que estava diretamente ligado ao mar e às longas viagens e que, até então, lhes era praticamente desconhecido. Assim, descobertas marítimas portuguesas pautaram-se sempre pela tentativa de apaziguamento e confrontação com o inevitável sentimento de medo.

No período de viragem da Idade Média para a Idade Moderna, o maior medo da população portuguesa estava inevitavelmente ligado ao cenário marítimo e, só depois vinha o medo da guerra e das epidemias. O medo constituia, então, o medo número um.

O medo representa o componente máximo da experiência humana, ele "está em nós e acompanha-nos em todas as eras e por toda a existência" (p. 179). Representa um dos pesadelos mais intímos da civilização ocidental dos séculos XIV, XV e inícios do século XVI.

Em pleno oceano, o medo revelava-se com toda a transparência e completamente dominante. Existem até alguns ditados que sugerem a não se aventurarem no mar:

- os Latinos "Louvai o mar, mas conservai-vos na margem."

- os Russos "Louva o mar, sentado no aquecedor."

- os Holandeses "Mais vale estar na charneca com uma velha carroça do que no mar com um navio novo." (p. 179)

De facto, foi do mar que vieram diversos males que ninguem conseguiu apagar das suas memórias, nomeadamente, a Peste Negra (século XIV), as invasões normandas (século IX) e as sarracenas (século XVIII).

De entre os recifes que orlam o mar, as correntes que tudo arrastam e os ventos que brotam sem ninguém esperar, a tempestade é definitivamente o receio por que todos mais temem:

 

"Contar-te longamente as perigosas
Cousas do mar, que os homens não entendem,
Súbitas trovoadas temerosas,
Relâmpados que o ar em fogo acendem,
Negros chuveiros, noites tenebrosas,
Bramidos de trovões que o mundo fendem,
Não menos é trabalho que grande erro,
Ainda que tivesse a voz de ferro."

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto V, 16, p.189

Ou seja, ao iniciar-se uma tempestade o céu agita-se, o ar adensa-se, os ventos sopram em todas as direções e, pelo meio soltam-se tenebrosos trovões. As tempestades oceânicas representam, assim, "a ponte que liga a realidade e a nova verdade oceânica fruto da prática e da experiência ao imaginário e à prática ritualística".

Conclui-se, então, que apesar de toda a técnica os Portugueses conseguiram vingar o projeto nacional - Descobertas Marítimas - graças à sua ousadia e bravura marítima dos homens que o protagonizaram e, em que ao longo de todos os momentos o medo do naufrágio nunca os demoveu do seu grande objetivo.

Inês Anastácio

fonte
 


 



Data: 2019-07-03

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