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VIAJANDO PELA HISTÓRIA DOS DESCOBRIMENTOS

Um toque de além-mar


Na tela (ver imagem), um estudioso mexe nos objectos de sua escrivaninha. Ele abre a caixa de escrita e tira uma pena, talvez também procure tinta. Ao mesmo tempo, olha para o livro aberto em cima da mesa, especialmente iluminado pela luz do dia que entra pela janela.

Este poderia ser apenas mais um quadro holandês antigo e passar despercebido para um observador brasileiro. Mas, reparando bem, há na pintura um elemento especial: no grande quadro pendurado na parede branca aparece a costa de Pernambuco, na altura de Recife e Olinda.

Não foi uma excentricidade ocasional do artista. No século XVII, o Brasil e outras conquistas holandesas no além-mar se tornaram inspiração para a decoração das casas e salas de estudo naquele país. Mapas, pinturas e objetos “exóticos” adquiridos nas possessões holandesas conferiam status ao dono da casa, num tempo em que a navegação e o comércio ditavam os rumos do governo e da economia.

O quadro em questão, “De Jonge Geleerd” (“O Jovem Erudito”), é de Cornelis de Man (1621-1706), natural da cidade de Delft, sudoeste da Holanda. Já o mapa retratado na parede é uma cópia muito bem executada do original produzido em 1648 por Cornelis Goliath (c.1610-1661), um dos cartógrafos mais importantes do seu tempo.

A produção cartográfica holandesa teve seu auge naquele século XVII, seguindo o impulso da produção de pinturas e de livros que veio a reboque do desenvolvimento de um extenso comércio ultramarino. Os mapas e pinturas tinham por objetivo representar o mundo real da maneira mais fiel e detalhada possível. Todos os capitães de navios holandeses que velejavam para a América, a África e a Ásia em busca de mercadorias eram obrigados a fazer anotações e desenhos sobre a viagem e sobre os lugares por onde passavam. Ao mesmo tempo, cartógrafos especializados eram mandados para as colônias e entrepostos comerciais holandeses para retratar a geografia da região. Outra forma de obter informações era o roubo de mapas e anotações de navios inimigos.

Uma vez de volta à pátria, todos estes papéis eram entregues aos cartógrafos oficiais das duas companhias holandesas de comércio ultramarino – a Companhia das Índias Ocidentais (West-Indische Compagnie, WIC) e a Companhia das Índias Orientais (Vereenigde Oost-Indische Compagnie, VOC). A partir do material recebido, eles desenvolviam mapas cada vez mais detalhados e precisos para serem usados nas próximas navegações.

Não foi diferente no período da ocupação holandesa no Nordeste do Brasil. Desde a invasão de Salvador, Bahia, em 1624-25, tanto os diretores da WIC quanto os sucessivos governos do Brasil Holandês se dedicaram a contratar pessoas que desenhassem planos, vistas e mapas das cidades e regiões conquistadas. Goliath foi um dos que receberam esta tarefa, depois que os holandeses, expulsos da Bahia em 1625, ocuparam Pernambuco em 1630. Ele esteve no Brasil no início daquela década e voltou em 1638 para prestar seus serviços ao conde Maurício de Nassau, governador dos domínios holandeses por aqui. Quando retornava à Europa, em 1641, foi capturado por piratas berberes e levado para a cidade de Argel, no norte da África. De lá, ainda conseguiu desenhar um plano daquela cidade e enviá-lo, junto com uma carta, para Nassau. Sua terceira viagem para a América do Sul ocorreu em 1644, mas logo no ano seguinte ele regressou à Europa. O mapa de Olinda e Recife foi produzido já na Holanda, a partir de suas anotações e das notícias que chegavam sobre as novas conquistas neerlandesas do outro lado do Atlântico.

Se o mapa de Goliath aparece na tela do pintor Cornelis de Man, não é por acaso. Ele tem uma função muito importante para as intenções do artista. O quadro apresenta a imagem de um sábio em seu trabalho. Não é um erudito conhecido, mas um homem sem nome, a representar a atividade do estudo. Na Holanda do período, ser um erudito significava estudar assuntos que hoje nos parecem tão diferentes, como latim, obras da antiguidade clássica, astronomia, cartografia e matemática. Por isso Cornelis de Man pintou o sábio cercado de objetos que remetem ao seu ofício. A caixa de escrita e o livro são os elementos mais evidentes. Acima da lareira, há outra indicação do alcance do conhecimento desse homem: a grande concha é uma menção aos gabinetes de curiosidades e de raridades – coleções de objetos exóticos encontrados pelos viajantes holandeses nas terras distantes que exploravam.

Conchas, animais empalhados, plantas, artefatos indígenas, porcelana chinesa e objetos em verniz faziam parte destes acervos, formados tanto por nobres quanto por médicos, professores das universidades e eruditos em geral. Ter uma coleção de raridades na Holanda do século XVII significava estar atento às novas descobertas científicas, bem como estar ligado às inúmeras viagens de exploração e comércio empreendidas no período. Era sinal de status, sabedoria e refinamento.

A presença do mapa tem o mesmo propósito. Ele evidencia a ligação do erudito com as conquistas holandesas no ultramar e até sugere uma ocupação específica para esse homem: ele poderia muito bem ser um cartógrafo. Ao comparar a proporção em que o mapa está pintado e suas reais medidas (cerca de 46cm x 56cm), percebemos que De Man exagerou nas dimensões, certamente uma estratégia para chamar a atenção do observador para o mapa do Brasil.

Não era incomum os artistas holandeses inserirem mapas em suas pinturas de interiores. Os mais famosos quadros neste estilo são de autoria de Johannes Vermeer (1632-1675), que, como De Man, nasceu e trabalhou em Delft. Em 1780, “O Jovem Erudito” chegou a ser vendido como sendo de autoria de Vermeer. As semelhanças entre os dois artistas ficam claras se compararmos o quadro de De Man com “O Geógrafo” (1668), de Vermeer. Nos dois, um estudioso está de pé, em frente a uma escrivaninha iluminada pela luz que entra pela janela, à esquerda. A escrivaninha está coberta por um tapete oriental estampado e o homem se debruça sobre ela. Na parede do fundo, um mapa decora o ambiente. Apesar das diferenças de cor – enquanto De Man abusa do vermelho, Vermeer escolhe o azul – e de alguns elementos presentes em apenas um dos quadros — a concha e a caixa de escrita na tela de De Man, o globo terrestre e o compasso na de Vermeer –, o tema da composição é o mesmo: um erudito durante seu trabalho.

Vermeer, contudo, nunca pintou um mapa do Brasil em seus quadros. Recorria mais a mapas das sete províncias do norte dos Países Baixos, que haviam declarado sua independência do Império Espanhol no final do século XVI. As províncias do sul, fiéis ao rei espanhol Felipe II (1527-1598), viriam a formar a atual Bélgica. No quadro “O Geógrafo”, o mapa que aparece é uma carta náutica das costas marítimas da Europa produzido por Williem J. Blaeu (1571-1638), dono de uma das maiores firmas de cartografia de Amsterdã no século XVII.

Mas outro holandês do período retratou um mapa do Brasil em sua pintura: Jacob Duck (c.1600 –1667), em “Herberginterieur” (‘Interior de Albergue”). No quadro, vê-se um enorme nieuwskaart, mistura de mapa com jornal, em que textos acompanham as imagens. Este tipo de publicação servia ao mesmo tempo como propaganda dos acontecimentos políticos da época e como decoração de parede. Em “Interior de Albergue”, o mapa dá a notícia da conquista de Pernambuco pelos holandeses em 1630.
Como mostram as obras de De Man e de Duck, os mapas eram também utilizados para decorar o interior das casas. A partir do final do século XVI e início do XVII, este é um fenômeno novo no mercado de arte dos Países Baixos: o destino da maioria das obras não era mais a Igreja ou uma instituição municipal ou corporativa (como uma prefeitura). Agora eram os regentes (diretores e administradores de instituições públicas), os mercadores e os artesãos especializados – ou seja, a população urbana de classe média – que encomendavam e compravam quadros. O mesmo acontecia com os mapas: eles eram usados cada vez mais como decoração de parede no interior de casas burguesas.

As pessoas que penduravam mapas ou quadros do Brasil em suas casas eram, na maioria das vezes, altos funcionários das Companhias de Comércio ou então mercadores de alguma maneira ligados aos produtos que vinham desta porção da América. Matias van Ceulen (1595-1644), que foi diretor da WIC e membro do Alto e Secreto Conselho do Brasil Holandês, tinha em casa seis obras relativas à sua experiência. Na ante-sala, pendurou um mapa do Brasil, um mapa do Recife, dois retratos de Maurício de Nassau e uma natureza-morta com frutas ocidentais. No escritório, tinha um mapa do Rio Grande – província que ele ajudara a conquistar em 1634. Cornelis Nason (1593-1648), tintureiro em Amsterdã, usava o pó raspado da madeira pau-brasil para fazer pigmento vermelho. Ele decorou sua sala principal com uma representação da luta pela Bahia de Todos os Santos, ocorrida em 1624.

As ante-salas eram o espaço preferido para a exibição dos mapas do Brasil e de outras regiões do mundo. Numa típica casa burguesa holandesa do século XVII, era naquele ambiente que se trabalhava, que se faziam negócios, que se vendiam produtos. Ela era o cômodo mais público da casa e, por isso mesmo, o melhor lugar para ostentar a posição social de quem ali vivia e trabalhava. Pendurar mapas na ante-sala era uma forma de simbolizar o envolvimento de seu dono com a administração das colônias ou com a principal atividade econômica do período: o comércio ultramarino.
No quadro “O Jovem Erudito”, o mapa de Recife e Olinda revela como a economia, a ciência e a arte andavam de mãos dadas. Esta bela imagem condensa, num espaço pequeno e colorido, os vários sentidos e as conseqüências da expansão marítima neerlandesa. E nos lembra que, em mais de um sentido, durante todo o século XVII os holandeses puseram o Brasil no mapa.

Mariana Françozo

ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL (BRASIL)
 


 



Data: 2019-06-30

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