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VIAJANDO PELA HISTÓRIA DOS DESCOBRIMENTOS

Homem à vista!


Quando o espanhol Rodrigo de Triana (na imagem), marinheiro a bordo da caravela Pinta, avistou as Bahamas às duas horas da manhã do dia 12 de outubro de 1492, estava dando início àquela que provavelmente foi a maior transformação já ocorrida no globo. A chegada das caravelas ao Novo Mundo pôs os europeus em contacto com novos produtos, novos hábitos e novas necessidades. A incorporação dessas regiões à esfera de influência da Europa teve grande importância económica, política e estratégica.

Não restam dúvidas sobre a dimensão desse impacto do lado ocidental do Atlântico: as populações nativas sofreram perdas incalculáveis, a começar pela drástica redução populacional causada por doenças – os índios eram vulneráveis a várias das enfermidades do Velho Mundo –, guerras e escravidão. Além disso, passaram por uma profunda alteração nos seus modos de vida em consequência de uma nova lógica econômica, religiosa e política. Mesmo aquelas parcelas ou grupos nativos que se enquadraram na nova ordem se viram em uma situação bastante diferente daquela anterior ao final do século XV. A integração da África e da Ásia a esse sistema mundial com base no Atlântico, que vai conhecer seu auge entre os séculos XVII e XVIII, levou essas alterações, com altíssimo custo humano (aliás, desumano) às outras partes do planeta.

A Europa, ou parte dela, foi beneficiária no processo – se levarmos em consideração que suas elites políticas e econômicas, que variaram ao longo de cinco séculos, do XV ao XIX, estiveram à frente da empreitada colonial. Os bônus foram variados: a consolidação de Estados nacionais, de dinastias, de casas e grupos comerciais, ligados quase sempre a produtos oriundos das colônias, como o açúcar de cana; de uma nova classe social vinculada ao início e ao desenvolvimento da industrialização; e de um sofisticado sistema bancário – tudo com base nas relações ultramarinas.

Ao lado desse óbvio enriquecimento, como é de se supor, há também uma generalização da pobreza, não só no campo, mas, principalmente, nos crescentes centros urbanos. A multidão inglesa nas grandes cidades da revolução industrial, entre os séculos XVIII e XIX – época da incontestável primazia da Grã-Bretanha no cenário econômico mundial –, é a mais perfeita forma da miséria humana em todos os tempos. A fome e a indignidade que atingiram os trabalhadores pobres do centro do capitalismo formaram o caldo humano que alimentou as ideologias de esquerda mais ou menos radicais, e seu gosto amargo não foi totalmente esquecido nos nossos dias.

O legado americano à Europa, entretanto, não se restringe às riquezas materiais que estão na base da expansão capitalista. Além do ouro, da prata e das pedras preciosas, os produtos coloniais também ganharam espaço naquele continente e alteraram a vida da cristandade. A começar pelo estômago: para se ter uma ideia da contribuição americana, dois dos quatro principais vegetais consumidos no mundo têm suas origens na região. A batata – injustamente chamada de “inglesa” – é originária dos Andes peruanos, onde já era cultivada havia cerca de 7.000 anos para alimentação humana. Foi levada pelos colonizadores europeus primeiramente como curiosidade, mas logo se espalhou e se tornou uma das bases da alimentação mundial. O milho, por sua vez, era cultivado inicialmente na América Central, e quando os europeus chegaram, entre os séculos XV e XVI, já era consumido em todo o continente americano. Devido à facilidade de adaptação e às muitas variedades, tornou-se elemento indispensável na dieta humana.

A sobremesa não poderia ficar de fora: o chocolate, vedete do paladar do Ocidente ao Oriente, estrela das mais refinadas gastronomias, personagem principal de datas especiais nos nossos dias, é igualmente originário das Américas. Quando os conquistadores espanhóis chegaram ao México, perceberam que a iguaria era para poucos: era servida, por exemplo, ao imperador asteca, Montezuma II (1466-1520). Além disso, o cacau era utilizado em cerimônias religiosas e servia também como moeda. Entre os séculos XVII e XVIII, virou sensação na Europa e nunca mais deixou de ser associado à sofisticação do paladar [ver RHBN no 43].

Outro hábito emprestado dos nativos americanos, e que acabou sendo considerado civilizado séculos depois, foi o consumo do tabaco. Introduzido na Península Ibérica no século XVI, foi levado pelo representante diplomático francês em Portugal, Jean Nicot, à corte francesa – daí a homenagem no gênero do arbusto, nicotiana, e no nome do princípio ativo, a nicotina. Entre os séculos XVIII e XIX, como toda moda adquirida da nobreza europeia, fumar virou sinônimo de sofisticação mundana, e os grandes centros “civilizados” do Velho Mundo promoveram a difusão do hábito – ou vício – em amplas camadas da sociedade, principalmente a partir da industrialização dos cigarros, no final do século XIX. Até bem entrado o século XX, mesmo com todas as provas científicas sobre os malefícios dessa toxicomania, fumar foi considerado um símbolo de modernidade, independência e civilidade.

Mas o grande impacto dos descobrimentos se deu mesmo no plano mental: entrar em contato com novas formas de organização social, estruturas políticas, hábitos alimentares, religiosidades, enfim, com novas culturas, trouxe aos europeus a noção de que os homens eram, em sua natureza, muito moldáveis. Levados para fora da Europa por um impulso ao mesmo tempo econômico e religioso, como rescaldo das intolerantes Cruzadas medievais, esses aventureiros acabaram se dando conta de que não havia apenas uma forma de se relacionar com o mundo, com os outros seres humanos e mesmo com as divindades.

Confrontados com uma diversidade inimaginável, que incluía canibais nus vivendo em formações tribais nômades ou vastos impérios territoriais que se dedicavam à construção de pirâmides e sacrifícios humanos, todos dotados de complexas cosmogonias, calendários e efetivas medicinas tradicionais, os oriundos da Europa cristã logo foram obrigados a reconhecer a humanidade de seres muito diferentes deles. Teólogos, filósofos e escritores produziram intensamente, por meio de debates falados e escritos, reflexões sobre o que seria a essência da humanidade, abrindo as portas para o que mais tarde, no século XVIII, seria formulado como “natureza humana”, rejeitando – ou, pelo menos, se abrindo à possibilidade para tal – a superioridade dos cristãos europeus sobre a totalidade dos grupos dispersos no globo.

Este impacto fica claro na mais famosa obra do inglês Thomas Morus, Utopia (1516). Trata-se de um relato ficcional sobre uma ilha recém-descoberta, onde os habitantes viviam em uma república perfeita, não conheciam a ideia de propriedade privada, colocavam a felicidade pública acima da individual, todos trabalhavam e, portanto, não havia exploração... Enfim, uma anti-Inglaterra, localizada convenientemente na América. Se pudesse haver uma forma perfeita de organização social – em tempos de divisões profundas na Europa, assolada por conflitos políticos e religiosos, agravados por transformações econômicas –, isto seria possível no Novo Mundo.

Se era aceitável a existência de uma formação política superior (mesmo que utópica) entre homens que não guardavam quaisquer relações com os do Velho Mundo, como rejeitar a humanidade dos americanos? O dominicano espanhol Bartolomeu de las Casas (1474-1566), bispo de Chiapas, no México, estava convencido da completa injustiça da escravização dos indígenas. Defensor de um modelo de colonização bem diverso daquele praticado pelos seus compatriotas, enfrentou políticos e teólogos, denunciou as atrocidades cometidas pelos espanhóis no Novo Mundo e morreu aos 92 anos como um autêntico humanista, na mais nobre acepção do termo.

Um humanismo que entrou definitivamente na pauta dos filósofos europeus pela pena de Michel de Montaigne, cujos Ensaios (1580-1588) tomavam como certa a universalidade do homem, e via como construções artificiais as instituições e os costumes do seu tempo. Esta visão, a longo prazo, abalaria as estruturas políticas, religiosas e sociais da Europa. Dele a Rousseau (1712-1778), passando por todos os livre-pensadores franceses, os homens começaram a ser vistos como iguais em sua essência, embora variados em seus valores e modos de vida.

Os marinheiros de Colombo não sabiam, mas naquela viagem acabaram descobrindo um elemento até então incogitado: o homem.

Rodrigo Elias

ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL (BRASIL)


 



Data: 2019-06-30

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