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VIAJANDO PELA HISTÓRIA DOS DESCOBRIMENTOS

Natureza iluminada


Para assegurar o poder da rainha e “regenerar” Portugal, a Academia de Lisboa centrou seu interesse em um novo tema: os recursos naturais do Brasil

Riquezas minerais, uma imensa variedade animal, plantas em uma profusão de cores e formas. Se hoje a natureza exuberante do território brasileiro inspira movimentos de preservação do meio ambiente, em fins do século XVIII ela atraiu a atenção de naturalistas portugueses, que tentavam torná-la algo compreensível para os europeus civilizados, além de rentável para a Corte.

O “Mundo de Queluz” – símbolo do poder dos reinados de D. Maria I e de seu filho D. João VI – investigava o Novo Mundo e se perguntava como seria possível domar o exotismo de sua natureza e tirar o maior proveito possível das colônias ultramarinas. Mas como os portugueses utilizaram as luzes da razão para transformar o ambiente colonial em um conhecimento palpável? E que interesses moviam este esforço?

A centralização política era o objetivo comum dos Estados modernos da época, e isso passava pela legitimação do poder real. Em Portugal, o Palácio de Queluz comportava diversas concepções políticas, filosóficas e cortesãs dentro de um mesmo ambiente, o que constantemente exigia do monarca bastante esforço para consolidar o seu poder. Durante o reinado de D. José I (1750-1777), o marquês de Pombal comandara a economia e a política com mão de ferro, marcando profundamente a administração portuguesa.

Depois da morte do rei, sua sucessora, D. Maria I, tinha pela frente o desafio de superar a influência pombalina. A mudança do regime teve por designação básica o nome de “Viradeira”, com o desligamento e mesmo a expulsão de pessoas ligadas ou identificadas com a política de Pombal. Para legitimar sua política reformista, a rainha contava com a decisiva atuação dos intelectuais.

O centro aglutinador desse novo ideário foi a Academia Real das Ciências de Lisboa, criada em 31 de dezembro de 1779 sob a proteção real. Assumindo o papel que antes fora da Universidade de Coimbra, a Academia conduz o debate científico e a formulação da política colonial. É aí que entra o incentivo à exploração do mundo natural.

A administração de D. Maria I trouxe de volta exilados e excluídos da vida política no período pombalino, como o abade José Correia da Serra (1750-1823), o padre Teodoro de Almeida, o duque de Lafões e a marquesa de Alorna. Um dos fundadores da Academia Real das Ciências, Correia da Serra era naturalista e acompanhava de perto os estudos botânicos mais recentes do cenário europeu. Esse grupo passou a trabalhar lado a lado com outros homens que já tinham certo destaque na época pombalina, como D. Rodrigo de Souza Coutinho (1745-1812), Domenico Agostino Vandelli (1735-1816), João da Silva Feijó, Joaquim de Amorim Castro e Júlio Mattiazzi.

Os intelectuais reformistas da Academia voltaram-se para um núcleo de ação comum, que aliava ciência e política: o objetivo era estudar formas de recuperar a economia do reino, que atravessava grave crise desde o fim da administração pombalina. Assim, o “Mundo de Queluz” e a Academia Real selavam uma sólida parceria, fundada na esperança da regeneração de Portugal pela via da política colonial ultramarina. A rainha passou a autorizar, incentivar e proteger a Academia e as demais agremiações científicas e literárias na metrópole e no mundo colonial que de alguma maneira servissem de apoio às suas demandas de legitimidade e reforma do Estado luso.

A partir de meados do século XVIII, o poder real passou progressivamente a orientar uma atitude científica “metódica” e a elaboração de um inventário do ultramar. Assim, a produção científica luso-brasileira estabeleceu-se numa estreita relação de dependência frente à rainha, ainda que tivesse certa liberdade de ação na formulação das bases que orientaram a ação do Estado na exploração das colônias. Essa política não tinha paralelo em toda a Europa: a ideia era regenerar a metrópole a partir do mundo natural. Para tanto, eram necessárias uma aproximação concreta da natureza das colônias e a elaboração da história natural de cada um desses locais. Pode-se considerá-las embriões do que hoje chamamos de estudos “ambientais”.

A atuação de D. Rodrigo de Souza Coutinho como ministro da Marinha e Ultramar (1796-1801) foi decisiva para acentuar o impulso dado às ciências da natureza, principalmente à botânica. O ensino acadêmico era influenciado pela leitura das obras de Vandelli, Mattiazzi, Franzini, Dalla-Bella, Ciera, João de Loureiro, José Correia da Serra e Félix de Avelar Brotero.

A comunidade intelectual luso-brasileira formada na Academia tinha uma orientação pragmática e utilitária: o que interessava era a ação humana e o que ela era capaz de produzir. Os acadêmicos lisboetas investigaram incansavelmente a natureza tropical das colônias, assim como os seus fundamentos morfológicos, em busca de uma resposta aos anseios de Queluz.

Havia um clima favorável aos estudos botânicos de uma forma mais ampla, do que se valeu a Academia Real das Ciências para mais facilmente impor a sua visão de mundo. Outros campos de conhecimento também ganharam realce com o crescimento da importância das ciências naturais voltadas para os recursos das colônias – especialmente a zoologia, a mineralogia e os estudos farmacêuticos.

A Universidade de Coimbra também contribuiu para a difusão desses novos saberes no período pós-pombalino, ou seja, depois de 1777. O estudo e os ensinamentos das ciências físico-químicas e naturais tinham lugar em um conjunto de cursos conhecidos como “Teatros”. Neles aconteciam atividades práticas de dissecação, classificação de plantas úteis, isolamento de substâncias e invenção de artefatos mecânicos. A reforma da universidade (a partir de 1772) deveria articular esses centros de geração de conhecimento.

Através de uma complexa rede de troca de produtos naturais entre as colônias, com a finalidade central de aclimatá-los e prepará-los para diversas destinações, o conhecimento da natureza física foi sensivelmente ampliado em Portugal. O trabalho era desenvolvido em laboratórios de experimentação, por meio de estudos realizados nos museus de história natural ou em investigações naturalísticas concretas promovidas pelas instituições na metrópole e no mundo colonial – Sociedade Literária do Rio de Janeiro, Academia Científica do Rio de Janeiro, Escola de Minas e demais agremiações lideradas pelos letrados com o objetivo de integrar brasileiros e portugueses num sentimento comum.

A necessidade de conhecer o mundo natural, de investigar os fenômenos físicos e químicos, relaciona-se com a tomada de consciência sobre a crise econômica. Os recursos das colônias ganhavam cada vez mais importância, o que contribuiu para a formação de um “subgrupo” de acadêmicos focado no uso que suas pesquisas e descobertas poderiam ter para a Coroa.

Outra esfera de atuação dos naturalistas era reproduzir o espaço natural existente nas colônias, “transportando-o” para os estabelecimentos científicos lisboetas. Amostras vegetais, animais e minerais – ou “criaturas brutas”, como eram chamadas à época – eram remetidas para Lisboa a fim de serem expostas como num “anfiteatro da natureza”. A reprodução do ambiente colonial fazia parte de uma estratégia do “Mundo de Queluz” para “redescobrir” o império ultramarino. Mais do que surpreender pelo exótico, o que se desejava era conhecer efetivamente a natureza colonial, ainda precariamente compreendida pelos exploradores luso-brasileiros, estendendo o seu conhecimento aos olhos europeus.

A ciência metropolitana pretendia contribuir para o desenvolvimento de uma cultura investigativa que pudesse ser disseminada pelo império colonial, rompendo com o isolamento entre o espaço colonial e as ideias de reforma que cada vez mais invadiam o território europeu. Os portugueses, que não queriam perder esse bonde, realizaram seu maior desejo: o reencontro com sua própria história, projetada no espelho do Novo Mundo.

Oswaldo Munteal Filho

ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL (BRASIL)


 



Data: 2019-06-30

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